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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Maçonaria: tecnologia avançada (I)


       Arthur C. Clarke, escritor, inventor e futurista, autor de "2001, odisseia no espaço", afirmou um dia que "qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia ("any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic"). De facto, se considerarmos que a "magia" consiste no uso de métodos sobrenaturais para manipular forças naturais, pode dizer-se que a tecnologia, por ultrapassar de longe o que podemos encontrar na natureza, pode, num certo sentido, ser considerada "sobrenatural". A tecnologia não deixa, contudo, de se basear solidamente - e unicamente, diria eu - no estudo das leis naturais.

       Explicar o funcionamento de muitos dos artefactos que nos rodeiam está bem para além do conhecimento do cidadão comum. Já não falo de saber explicar como funciona, por exemplo, um telemóvel ou um televisor; mas quantos saberiam explicar como funciona um simples relógio mecânico - como um despertador de corda - ou uns binóculos? Para os explicar são necessários alguns rudimentos de ótica num caso, e de mecânica no outro. No entanto, uma vez transmitidos e apreendidos os conceitos, poder-se-ia avançar para o entendimento de engenhos mais avançados - como um motor a vapor, por exemplo. Por outro lado, se tentarmos explicar como funciona um despertador sem nos assegurarmos de que o nosso interlocutor sabe o que é uma alavanca e quais os seus princípios subjacentes, o que é por sua vez essencial ao entendimento de como funciona uma roda dentada, então estamos condenados ao fracasso. O conhecimento desta natureza deve ser tansmitido de forma sequencial, começando-se pelo simples e criando-se progressivamente alguma complexidade com base no conhecimento adquirido, de modo a garantir-se a sua interiorização.


       Há casos conhecidos de exposição de alguns povos a tecnologias para as quais estes não dispunham de bases de entendimento, e do subsequente aparecimento de cultos de caráter religioso em torno das mesmas. Um dos exemplos famosos é o culto à carga, um tipo de prática religiosa que apareceu em muitas sociedades tribais tradicionais aquando do contacto e interação com culturas tecnologicamente mais avançadas. Esses cultos focam-se na obtenção de riqueza material (a "carga") da cultura avançada através de práticas e rituais mágicos e religiosos, crendo que a riqueza lhes fora facultada e destinada pelas suas divindades e antepassados. É assim que, enquanto que é para nós evidente que o lançamento de mantimentos por avião durante uma fome é um ato de solidariedade, para alguns dos que recebem essa ajuda é de magia que se trata.


       O modo racional e científico de olhar o mundo está de tal modo imbuído da nossa forma de pensar eurocêntrica e ocidental que nos custa a ponderar as alternativas. Muitos dos povos do mundo ainda estão arredados dos fundamentos da forma de pensar que levou ao surgimento do pensamento e do método científicos: a experimentação e repetição, o isolamento das causas dos fenómenos, o raciocínio e a matemática enquanto ferramentas de trabalho. Em seu lugar encontramos uma profusão de conhecimentos passados de geração em geração em que se mistura informação útil sobre plantas, animais e metodologias validáveis com superstições, demonologias e pura feitiçaria. De facto, a própria matriz cultural subjacente à interiorização enquanto "fenómenos mágicos" de meros acontecimentos naturais dificulta tremendamente a tentativa de explicação da sua verdadeira natureza. Não é, assim, senão natural que manifestações de tecnologias estranhas sejam interpretadas como poderosas magias aos olhos de quem apenas encontra magia no mundo que o rodeia.


Paulo M.

A Maçonaria: tecnologia avançada II




     Durante a Idade Média eram os artesãos quem, empregando a destreza manual, a criatividade e o saber acumulado ao longo de gerações, produzia a maior parte dos bens. Por esta altura, os métodos, técnicas e saberes próprios de cada ofício - resultado de séculos de experimentação, erro e repetição (e, bastas vezes, de alguma sorte) – estavam já muito mais próximos do saber científico do que da magia, obtendo resultados consistentes quando sob condições controladas. Por isso mesmo o seu valor era imenso, pelo que constituíam segredos ciosamente guardados.
       A classe dos artesãos dividia-se em dois grupos: os que tinham o seu próprio negócio - os mestres - e os que o não tinham; estes últimos subdividiam-se em assistentes pagos - ou companheiros - e aprendizes. O grupo mais influente dentre os artesãos era o dos mestres, os que detinham o seu próprio negócio e gozavam de grande prestígio nas suas comunidades.

       Quem quisesse aprender um ofício tinha, primeiro, que ser aceite como aprendiz por um mestre artesão. Este iria, ao longo do tempo - frequentemente, de anos - ensinar-lhes primeiro as bases e depois, técnicas progressivamente mais elaboradas. Em troca, era frequente ficar o aprendiz obrigado a trabalhar um certo número de anos para o seu mestre. No âmbito da sua formação, os aprendizes aprendiam, assim, os “segredos do ofício”, primeiro através da observação do trabalho do mestre e depois através da prática. Esta transmissão de conhecimento queria-se fortemente restrita e regulada, pelo que não só os mestres artesãos apenas revelavam os segredos à medida da progressão dos recipiendários, como os aprendizes tinham, frequentemente, que jurar guardar os segredos que lhes eram confiados, Assim, era-lhes absolutamente proibido revelá-los quer a estranhos quer a aprendizes que ainda os não conhecessem.

       No momento em que conseguisse trabalhar sem supervisão, podia o aprendiz passar a ser considerado assistente ou companheiro, altura em que passava a receber salário - pois que, até aí, era comum pouco mais receber que alimentação, guarida e a roupa de trabalho. Ao longo do tempo os assistentes continuavam a aprender com o seus mestres, sempre sob condição de segredo. Por fim, se a certa altura, o assistente conseguia angariar para si mesmo clientes que lhe permitissem autonomizar-se e estabelecer-se por conta própria, passava então a ser mestre de uma oficina. Era esta a progressão profissional nesta classe e nesta época.
       Não é senão natural que, no sentido de defender os seus direitos e interesses comuns, os mestres artesãos tivessem procurado associar-se; podemos assim, sem medo de errar, presumir serem as associações de artesãos tão antigas quanto as respetivas artes. Ao longo dos séculos, cada uma dessas associações foi sendo reconhecida perante a sociedade enquanto interlocutor de toda a classe profissional que lhe dera origem. Era frequente as corporações assistirem os seus membros doentes, e tomarem a cargo as viúvas e órfãos dos artesãos menos prósperos. Davam dinheiro e comida aos pobres, e ofereciam aos hospitais a carne que sobrava dos seus banquetes. Refletindo a religiosidade onipresente na Idade Média, as associações de artesãos operavam sob o patronato de um santo, que era considerado o especial protetor dessa arte, e em honra de quem era comum existir pelo menos uma pequena capela na zona da povoação em que os respectivos artesãos laboravam.
       O auge do poderio das guildas - associações ou corporações profissionais medievais - deu-se no século XIV; nessa altura, nenhuma associação de artesãos podia existir legalmente sem a licença do rei, do príncipe, do abade ou do senhor do município onde pretendiam estabelecer-se. O reconhecimento real destas corporações de artesãos passava pela elaboração de leis especiais que lhes permitia governarem-se a si mesmos. Estas leis eram elaboradas com base no testemunho oral dos membros mais seniores de cada corporação; podia-se considerar, assim, serem leis produzidas pelas corporações, verdadeiros estatutos aprovados e aceites pelo Rei, e não uma lista de regras estabelecidas e impostas pelas autoridades. Esses estatutos quase sempre detalhavam com precisão as condições de trabalho, dias e horas de laboração, tamanho dos artigos, a qualidade da matéria-prima, e mesmo o preço de venda; tentavam, igualmente, prevenir fraudes e falsificações, pelo que os mestres eram, por exemplo, obrigados a marcar com o seu cunho pessoal os bens que produziam.
       Havia, ainda, regulamentos internos, mas desses falarei no próximo post.

MAÇONARIA - Tecnologia Avançada - III

       Uma das ordens profissionais mais poderosas na Idade Média era a dos pedreiros. Os "mestres pedreiros" eram uma mistura dos atuais arquitetos e engenheiros civis, dominando as vertentes técnica e estética; por produzirem obras duradouras e imponentes, boa parte das quais de caráter religioso, eram socialmente reconhecidos como servidores de Deus.
       A construção de grandes edifícios de pedra era multi-disciplinar, e implicava conhecimentos avançados de física, mecânica e matemática para a conceção da estrutura, para além do domínio da metalurgia, escultura, pintura e química para a ornamentação, que por sua vez tinham motivos baseados no conhecimento da história, da teologia e da mitologia. Congregava, por isso, as mentes mais brilhantes da época, e eram detentores de "segredos" como o teorema de Pitágoras, ou o desenho de certos ângulos e figuras geométricas a partir de instrumentos simples como um fio e dois ou três pedaços de madeira.
       Por essa razão, a par dos estatutos - que eram públicos e regulavam a relação das corporações com a sociedade envolvente – havia regulamentos que visavam a defesa dos segredos do ofício e que, por não se pretenderem revelados, eram apenas oralmente transmitidos de mestre para aprendiz ou de mestre para companheiro. Porque a maioria da população dessa época era analfabeta, essas técnicas, ao ser transmitidas, eram "embelezadas" com histórias que constituíam mnemónicas que pretendiam ajudar a que não esquecessem os passos da sua execução. Por outro lado, estas "histórias" permitiam que as técnicas fossem referidas simbolicamente entre quem as conhecesse sem revelar o seu sentido oculto.
       Não esqueçamos, ainda, o contexto físico em que tudo isto se dava. Aquando da construção de um grande edifício, a primeira edificação a efetuar-se era um barraco onde os pedreiros se abrigavam, comiam, dormiam, guardavam as ferramentas e passavam os tempos livres - as "lojas". Ainda hoje este termo é usado em algumas regiões do nosso país para designar o espaço térreo sob a zona habitacional, e onde se guardam os animais e as alfaias agrícolas. Grupos de homens passavam aí juntos meses a fio, e por vezes anos; por isso era importante minimizar-se os conflitos, estabelecer uma hierarquia clara, e fomentar o espírito de grupo. Ora, nada torna um grupo mais coeso do que o estabelecimento de regras, costumes e valores partilhados. Não é difícil imaginar a formação dos aprendizes orientada não só para o aspeto prático do desempenho das funções como para o estreitamento destes laços entre os que habitavam a mesma loja.
       Por outro lado, numa época em que as comunicações entre povoações mais longínquas podiam demorar semanas ou meses, era comum o estabelecimento de meios de reconhecimento; assim, quem chegasse a uma terra estranha e se dirigisse a alguém dizendo-se enviado por fulano, podia simplesmente identificar-se revelando um segredo apenas conhecido deste e do seu interlocutor. Deste modo, fazia parte dos segredos de algumas associações de artesãos os meios pelos quais se poderiam fazer reconhecer noutra terra ou perante um estranho que aparecesse.
       Havia, por fim, outra razão para que algumas das técnicas não fossem reveladas. Numa época de grande superstição e ignorância, a simples aplicação de uma técnica científica podia ser - e era-o frequentemente - interpretada como bruxaria ou invocação de demónios. Não será, de facto, muito mais cómodo atribuir o sucesso alheio à ação de forças sobrenaturais do que admitir o seu mérito e, eventualmente, a sua superioridade intelectual? Para evitar "contratempos" dessa natureza é que muito do conhecimento da época, especialmente o ligado à química e à matemática, era cuidadosamente ocultado, não fosse confundido com artes de bruxaria ou adivinhação... Manter e saber guardar um segredo era, assim, mais do que o mero cumprimento de um dever ou a defesa do ganha-pão: era uma verdadeira "técnica de sobrevivência".


Paulo M.

A Maçonaria: tecnologia avançada (IV)




A admissão de um aprendiz numa Loja operativa não era feita em privado; pelo contrário, envolvia todos os obreiros. Feita à noite - depois de um dia de trabalho - envolvia um ritual durante o qual era exposta ao aprendiz a história e importância da arte, salientado o privilégio que era para ele ser admitido, e explicado o que dele se esperava. A progressão de um artesão era, assim, uma cerimónia em que, envergando os seus trajes e instrumentos de trabalho - nomeadamente o avental e as luvas - para acolher no seu seio um novo membro, participavam quantos já por ela haviam passado.

Para além da transmissão de conhecimento tecnológico, era inculcado no recipiendário todo um conjunto de ensinamentos históricos, religiosos, mitológicos e morais. A utilidade e o âmbito desses ensinamentos, por sua vez, ultrapassava de longe o do mero trabalho da pedra. Podemos compará-los - evidentemente, com alguma latitude de conceito - aos ensinamentos de deontologia e ética que são, ainda hoje, essenciais ao ingresso, por exemplo, nas Ordens dos Médicos ou dos Advogados, mas com um espírito que os tempos modernos já perderam. Na prática, estes rituais - com uma grande componente mística - giravam em torno da leitura das "old charges", episódios retirados da bíblia, da História, da lenda ou do imaginário que descreviam a importância, ascendência e grandes feitos dos construtores ao longo dos tempos, e mostrando serem eles os Mestres da Geometria. Um dos mais antigos manuscritos das "old charges" que persistiu até aos nossos dias remonta a 1588; encontra-se no museu da Grande Loja Unida de Inglaterra, e consiste num rolo de papel com a altura de um homem e um palmo de largura.

Mesmo no final do século XVI dá-se na Escócia um evento essencial ao surgimento da maçonaria moderna: William Schaw, funcionário da Coroa, leva a cabo a tarefa de regular o funcionamento das lojas que, até então, eram completamente autónomas. Fá-lo através de dois textos fundamentais, conhecidos pelos "Estatutos de Schaw", dois textos legais aprovados pela Coroa da Escócia - um em 1598 e o outro em 1599 - que, pela primeira vez, organizavam os pedreiros escoceses em entidades chamadas "lojas" e os sujeitavam a obrigações administrativas. Entre estas contava-se o pagamento de uma jóia para admissão nas lojas, a formalização da estrutura das reuniões, e a obrigatoriedade de existir um secretário que registasse o sucedido em todas as reuniões - aquilo a que hoje chamamos "atas" - o que permite que, por exemplo, a "Mary's Chapel Lodge" tenha registos ininterruptos das reuniões dos últimos mais de 400 anos.

Ficava também formalizado e regulado um antigo costume dos maçons operativos: o uso de senhas e sinais secretos. De acordo com o nível de conhecimento que um maçon obtinha, à medida que progredia na arte, era informado de certas palavras ou certos sinais de reconhecimento. Agora, de acordo com os estatutos de Schaw, tomava carácter obrigatório outro costume: a proibição de um Mestre dar trabalho a um operário a não ser que este lhe desse a sua "chave": a palavra e/ou o sinal que atestavam que estava capacitado a fazer determinado tipo de trabalhos.

Curiosamente, os Estatutos contemplam também um sistema de mnemónicas, de memorização. Recorde-se que, não obstante a maior parte dos artesãos ser iletrada - não sabiam nem ler nem escrever - era necessário que não esquecessem o que aprendiam. Para esse efeito, era-lhes ensinado um sistema de memorização a que os oradores do período Clássico recorriam para não esquecerem os leus longos discursos. Baseado na visualização mental de um edifício com várias divisões, cada uma com vários objetos, cada um dos quais se associava à ideia que se pretendia recordar, consistia na deambulação mental pelo edifício evocando os símbolos em sucessão. É deste método que vêm as "tábuas de traçar" ("tracing boards") ainda hoje usadas em Loja.

A partir de certa altura as lojas operativas terão aceite no seu seio pessoas que não trabalhavam a pedra: nobres, burgueses, oficiais do exército, em suma, pessoas de estratos sociais mais elevados, conhecidos por "gentlemen masons". Os primeiros destes eram aristocratas com funções dentro do governo, e responsáveis pela edificação de palácios, castelos e afins, pelo que havia com os mesmos uma ligação laboral. Por um lado, essas pessoas buscavam o conhecimento que era transmitido nas lojas, e que, por ser secreto, gerava curiosidade, para além do prestígio que a sua nova qualidade de membros lhes conferia. Por outro lado, as lojas, apesar de serem organizações conceituadas e prestigiosas, mais prestígio ganhavam através do reconhecimento social destes seus novos membros. Estes, durante a iniciação como aprendizes nas Lojas, recebiam, além dos segredos, o avental e as luvas (uma vez que não dispunham dos seus próprios objectos de trabalho), e era a última vez que eram vistos: apenas vinham por causa do fascínio com os segredos, e não estavam propriamente interessados no convívio com os trabalhadores.

A aura das lojas operativas prolongou-se até ao tempo dos Tudor, altura em que os pedreiros começaram a perder relevância em virtude do início do uso do tijolo, muito mais barato do que a pedra, que levou ao progressivo abandono desta última, usada a partir daí apenas nas partes mais nobres dos edifícios. Foi assim que, pelo início do século XVII já não havia em Londres lojas operativas em funcionamento. Não fora a admissão dos "gentlemen masons" e as Lojas ter-se-iam extinto de todo; contudo, à medida que o número destes foi suplantando o de membros operativos, foi mudando o funcionamento e o propósito das Lojas. Já não se dedicando à construção de edifícios de pedra, construiam agora templos simbólicos em que cada um aparava e polia as suas próprias asperezas de caráter no sentido de se tornar uma pessoa melhor, tomando com base as regras morais da maçonaria operativa, e como símbolos os instrumentos de trabalho desta bem como as mnemónicas que serviam para recordar as suas lições tecnológicas. Enquanto se extinguia a Maçonaria Operativa, ia surgindo em seu lugar a Maçonaria Especulativa.

Referências:
http://libcom.org/library/trade-guilds-initiation-through-work-andre-nataf
http://www.scottishkey.com/

Maçonaria Tecnologia avançada – V


Na Inglaterra de meados do século XVII o poder do Rei e da Igreja começavam a ser postos em causa por toda uma classe média emergente, o que levou à guerra civil que devassou a Inglaterra entre 1642 e 1649 e à execução de Carlos I, o que deixou a Inglaterra sem rei. Sob um governo republicano liderado por Oliver Cromwell, a Inglaterra foi governada a ferro e fogo no período de pós-guerra (de 1649 a 1660), depois do que o Parlamento restaurou a Monarquia, tendo Carlos II - filho de Carlos I - sido coroado a 1661, com a idade de 30 anos. Um ano depois casaria com Catarina de Bragança. Carlos II, favorável à causa da liberdade religiosa e patrono das artes e da ciência, ficou conhecido como o Merrie Monarch, o Rei Alegre, quer pela sua boa disposição e pelo hedonismo da sua corte, como pelo alívio pelo retorno à normalidade após o governo de Cromwell.

Enquanto as autoridades política e religiosa em Inglaterra se encontravam diminuídas e fragilizadas - e eram agora mais fonte de desavença do que de união - surgia no Mundo um novo paradigma entre os meios intelectuais da época: o do primado da razão como fonte de legitimidade e de autoridade, num movimento que veio a ficar conhecido como Iluminismo. Este é, historicamente, coincidente com o século XVIII, mas as suas raízes podem ser encontradas algumas décadas antes.

Encontramos, logo após a guerra civil inglesa, a sociedade londrina efervescente de associações e clubes onde os cavalheiros podiam socializar uns com os outros; as temáticas decorriam dos novos interesses da época. Assistia-se, ao mesmo tempo, ao declínio das irmandades (associações de homens, normalmente profissionais do mesmo ramo, com fins de assistência mútua na doença ou na morte), que existiam desde o século XI; para congregar as pessoas já não bastava a ideia de assistência mútua. Foi neste contexto que, em 1660, com o propósito de juntar vários tipos de homens no estudo da Ciência, foi fundada a Royal Society. Robert Moray - um alto oficial do exército e também defensor da tolerância religiosa - conseguiu o apoio da família real para a sua fundação. A Royal Society, de que Moray viria a ser o primeiro presidente, tinha uma característica curiosa: não se iniciava aí discussões sobre política ou religião; falava-se de Ciência. Esta sociedade obteve considerável sucesso, graças ao qual a revolução científica atingiu a Europa através da obra de Isaac Newton, que propunha a visão de um mundo que obedecia a regras passíveis de ser formuladas e entendidas pela mente humana.

Ora, Robert Moray fora iniciado maçon na Mary's Chapel Lodge, e não foi o único"gentleman mason" iniciado numa loja escocesa. Havia muitos outros que, juntando-se em Lojas em Londres ou constituindo clubes, trariam para esta cidade esta visão, esta forma de estar na vida. Sabemos hoje que muitos dos membros da Royal Society se interessavam pelos clubes maçónicos que acabavam de surgir, pois encontravam neles uma mistura dos princípios científicos e racionais que acarinhavam com os princípios morais a que aspiravam, de mais a mais embelezados por uma rica teia de ensinamentos místicos, o que a tornava muito atrativa.


A Maçonaria tornou-se, deste modo, na principal "corrente" - se assim se lhe pode chamar - de clubes de cavalheiros. É verdade que, à semelhança dos outros clubes que surgiam, as lojas constituíam um ambiente onde homens de diferentes convicções religiosas e políticas podiam encontrar-se e confraternizar amigavelmente; contudo, o que a Maçonaria tinha que as outras sociedades não tinham era um propósito mais sério, por assim dizer: tornar os seus membros em pessoas melhores, ensiná-los a ser cidadãos dos seus países, e incentivá-los a cultivar-se intelectualmente.


Através dos primeiros gentlemen masons, oriundos da clique intelectual da época, a Maçonaria abraçara os valores de um Iluminismo que dava os primeiros passos, cunho que se manteria até aos dias de hoje. Os gentlemen masons tinham conseguido propagar um novo paradigma de autoridade, um novo conjunto de princípios, um novo edifício ético. Tomaram os ideais do Iluminismo e um conjunto de princípios morais transversais às várias denominações religiosas da época, enformaram-nos num clube de cavalheiros com tradições seculares, e tornaram-nos apelativos ao cidadão vulgar. Finalmente, após as guerras religiosas e civis, após os ódios fratricidas, a Inglaterra dispunha de um movimento unificador que, em torno de uma espiritualidade não sectária, para além dos partidos e das religiões, juntasse homens que de outro modo se manteriam para sempre afastados.


De 24 de Junho de 1717 - data da fundação, em Londres, da primeira Grande Loja do mundo por quatro Lojas Maçónicas - a 1723 formaram-se, só em Londres, já mais de 30 Lojas Maçónicas, número que explodiu nos anos que se seguiram, com gente de todas as classes a juntar-se à Maçonaria. Os segredos e os conhecimentos tecnológicos dos antigos pedreiros estavam agora ao alcance de todos. As lições morais e a postura perante a própria existência retiradas dos antigos símbolos, associados aos princípios do Iluminismo, viriam a mudar primeiro a sociedade Inglesa, e depois o resto do mundo.

MAÇONARIA - Tecnologia Avançada - VI - Epílogo

Muitos dos "segredos" da maçonaria operativa - especialmente os ligados à engenharia, à arquitetura e à ciência - fazem hoje parte do conteúdo curricular de cursos do ensino superior - e alguns mesmo do ensino obrigatório. Outros ainda, mais ligados à técnica do trabalho artesanal da pedra, ter-se-ão perdido irrecuperavelmente por falta de aprendizes que perpetuassem a arte. Outros, de cariz mais simbólico, apesar de subsistirem, terão distorcido o seu significado a ponto de ser irreconhecível o seu sentido original. A "tecnologia avançada" da época, que as Lojas tão ciosamente guardavam, deixou de ser sigilosa, encontrando-se - com mais ou menos estudo - ao alcance de todos.

Por tudo isto, é inegável que a Maçonaria actual não tenha quase nada em comum com a maçonaria operativa da Idade Média. Então, o que é hoje a Maçonaria? A chave desta questão encontra-se na forma como a própria Maçonaria se define: "A Maçonaria é um sistema peculiar de moralidade, velado por alegorias e ilustrado por símbolos". A Maçonaria é, portanto, um sistema de moralidade, e um que, como vimos já, abraça os princípios do Iluminismo - com o primado da razão enquanto fonte de autoridade e legitimidade - bem como a tolerância religiosa. A Maçonaria, não obstante partindo do princípio da imortalidade e da crença num princípio criador regular e infinito, apresenta uma conceção do mundo afastada da ignorância, do obscurantismo e da superstição, promovendo a busca da virtude, entendida como a força de fazer o bem no seu sentido mais lato do cumprimento dos nossos deveres para com a sociedade e para com a nossa família sem interesse pessoal. A ética da Maçonaria é, por outro lado, uma ética de trabalho, não pondo nenhum obstáculo ao esforço na busca da verdade, nem reconhecendo outro limite nessa busca senão o da razão.


Esse "sistema de moralidade" não é apresentado de uma vez; os princípios vão sendo apresentados de forma progressiva, e vão sendo desvendados novos "segredos" através de histórias alegóricas - que mais não são do que pontos de partida para a reflexão sobre potenciais imperfeições da nossa existência com o fim do auto-aperfeiçoamento. Por outro lado, as alegorias não são apresentadas de forma inequívoca, tendo cada um a liberdade de retirar delas os ensinamentos que lhe sejam mais proveitosos, o que é rigorosamente respeitado e promovido. Os símbolos, do mesmo modo, não têm significados universais, podendo ser interpretados por cada um da forma que entenda. A par de todo o aperfeiçoamento moral e espiritual, promove-se um saber diversificado, muito para além da especialização profissional que é a norma do nosso tempo. Cada um é, por exemplo, incentivado a apresentar oralmente trabalhos que tenha escrito e que podem ser sobre qualquer tema que possa interessar os obreiros da Loja, o que, para além do conteúdo apresentado, promove a prática da Retórica e da Gramática. Enquanto tudo isto sucede, vai cada um aprendendo a respeitar a posição alheia, mesmo que com ela não concorde; a calar um reparo se do não resulte senão a quebra da harmonia; a exercer a sua Liberdade dentro dos limites que a Igualdade e a Fraternidade impõem.


Mas então, porque continua a Maçonaria a manter "segredos" já revelados? Porque é que se continua a imitar uma profissão extinta, e a perpetuar lendas e símbolos de outros tempos? Por outras palavras, porque é que a Maçonaria é o que é, e porque é que, na Maçonaria, se faz o que se faz, e do modo que se faz? A resposta não poderia ser mais simples: porque funciona. De facto, o passar dos séculos tem demonstrado ter a Maçonaria uma metodologia eficaz de propagação dos princípios que esta acarinha e representa.

Por outro lado, pode dizer-se ser o seu "tradicionalismo" uma das causas da sua longevidade e, contrariamente a tantas associações que aparecem e desaparecem num curto espaço de tempo, a Maçonaria não tenciona deixar de existir de um dia para o outro. De facto, é inegável que nas sociedades atuais, como no século XVII, grassa a ignorância e a mediocridade, prevalece o fundamentalismo e o preconceito, e o oportunismo sobrepõe-se à retidão de princípios. Os propósitos da Maçonaria estão ainda longe de se ter concretizado, e longe de se ter esgotado os motivos da sua existência. Por esta razão, enquanto houver Homens com o firme propósito de se melhorar, de aprender a viver em proximidade com perspetivas diferentes das suas e de praticar a virtude e o bem, haverá lugar para que, por seu intermédio, a Maçonaria torne o mundo num lugar mais justo e mais perfeito.


Paulo M. 

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Aborto diga não!

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1999 - Um fotógrafo que fez a cobertura de uma intervenção cirúrgica para corrigir um problema de espinha bífida realizada no interior do útero materno num feto de apenas 21 semanas de gestação, numa autêntica proeza médica, nunca imaginou que a sua máquina fotográfica registaria talvez o mais eloquente grito a favor da vida conhecido até hoje.

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal.

Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX).

Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença".

Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias.

Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

Fonte:www.apocalink.blogspot.com